[Lúcifer, Vol. I, nº2, outubro, 1887, pp. 120–122]
[A autoria deste artigo é algo incerta. Algumas de suas frases e expressões não parecem ter o estilo de H.P. B., contudo, a ‘atmosfera’ é dela. Bertram Keightley, que foi intimamente ligado a ela no trabalho editorial de Lúcifer, afirma definitivamente em suas Reminiscências de H. P. Blavatsky (Adyar: Theos. Publ. House, 1931) que além de escrever os editoriais, H. P. B. também escrevia “muitos outros artigos sob mais de um nom de plume”, e o pseudônimo “Fausto” apenso ao final deste artigo pode ter sido um deles — Compilador]
O paradoxo parece ser a linguagem natural do ocultismo. E, além disso, parece penetrar profundamente no âmago das coisas e, assim, ser inseparável de qualquer tentativa de expressar em palavras a verdade, a realidade subjacente às aparências externas da vida. E o paradoxo não se encontra somente nas palavras, mas nas ações, na própria conduta da vida. Os paradoxos do ocultismo devem ser vividos, não apenas enunciados. Nisso há um grande perigo, pois é muito fácil realmente nos perder na contemplação intelectual da senda e, assim, nos esquecer que só podemos conhecer o caminho trilhando-o.
Um surpreendente paradoxo apresenta-se para o aprendiz desde o princípio, fazendo-o confrontar-se com formas sempre novas e estranhas a cada volta da estrada. Este aprendiz, possivelmente, busca o caminho desejando orientação, uma regra para conduzir sua vida. Ele aprende que o alfa e o ômega, o começo e o fim da vida são altruísmo; e ele percebe a verdade do provérbio que afirma que apenas na profunda inconsciência do autoesquecimento podem a verdade e a realidade da existência revelarem-se ao seu coração anelante.
O estudante aprende que esta é a única lei do ocultismo, ao mesmo tempo a ciência e arte de viver, o guia para a meta que ele deseja atingir. Ele se sente inflamado pelo entusiasmo e entra bravamente na trilha da montanha. Descobre, então, que seus instrutores não estimulam seus ardentes voos sentimentais; nem o seu anelo - esquecendo todo o resto - pelo Infinito, no plano externo de sua vida e consciência atuais. No mínimo, caso não esfriem seu entusiasmo, eles o incumbem, como primeira e indispensável tarefa, a conquistar e controlar seu corpo. O estudante descobre que longe de ser estimulado a viver imerso nos pensamentos vacilantes de seu cérebro, e a fantasiar que alcançou aquela atmosfera onde há verdadeira liberdade — a esquecer de seu corpo, suas ações e personalidade externas — ele é incumbido de realizar tarefas muito mais próximas do chão. Toda sua atenção e vigilância são necessárias no plano externo; ele não deve nunca esquecer de si, nunca perder o controle do seu corpo, de sua mente e de seu cérebro. Ele deve aprender a controlar até mesmo a expressão de cada aspecto seu, verificar a ação de cada músculo, ser mestre do mais mínimo movimento involuntário. A vida diária ao seu redor e em seu interior é apontada como objeto de estudo e observação. Em vez de esquecer o que é usualmente rotulado de ninharias insignificantes, os pequenos descuidos, os acidentais deslizes da língua e da memória, ele é forçado a tornar-se cada dia mais consciente destes lapsos, até finalmente parecerem envenenar o ar que ele respira e sufocá-lo até ele parecer perder de vista e perder o contato com o grande mundo da liberdade na direção do qual ele está se esforçando, até cada hora e cada dia parecerem-lhe repletos do gosto amargo do eu, e seu coração adoecer com a dor e o violente esforço do desespero. E a escuridão é considerada ainda mais profunda pela voz em seu interior, que grita incessantemente “esqueça de ti. Senão tu te tornas autocentrado e a erva daninha gigante do egoísmo espiritual cria fortes raízes em teu coração; cuidado, cuidado, cuidado!”
A voz agita as profundezas do seu coração, pois ele sente que as palavras são verdadeiras. Sua luta diária e constante o está ensinando que o autocentramento é a raiz da miséria, a causa da dor e sua alma está tomada pelo anseio de se libertar. Assim, o discípulo torna-se dilacerado pela dúvida. Ele confia em seus instrutores, pois sabe que por meio deles fala a mesma voz que ele ouve no silêncio de seu próprio coração. No entanto, eles agora pronunciam palavras contraditórias; uma, a voz interior, ordena-lhe a esquecer-se completamente de si, a serviço da humanidade; outra, a palavra proferida por aqueles de quem busca orientação a seu serviço, o incita a primeiro conquistar seu corpo, seu eu exterior. E ele sabe melhor a cada hora que passa como se porta mal nesta luta com a Hidra, e vê sete cabeças nascendo no lugar de cada uma que acaba de decepar.
A princípio ele oscila entre as duas, ora obedecendo uma, ora outra. Logo aprende, porém, que isso é infrutífero. Pois a sensação de liberdade e leveza que vem no início, quando ele deixa seu eu exterior sem vigiar para que possa buscar o ar interior, logo perde sua intensidade e um súbito choque revela-lhe que ele escorregou e caiu no caminho ascendente. Então, desesperado, ele se lança sobre a traiçoeira serpente do eu e esforça-se para estrangulá-la até a morte; contudo, suas espirais sempre em movimento escapam de suas mãos, as insidiosas tentações de suas brilhantes escamas cegam sua visão e, novamente, ele se vê envolto no tumulto da batalha, que o vence dia após dia e que , finalmente, parece encher o mundo inteiro e riscar tudo o mais de sua consciência. Ele está diante de um avassalador paradoxo, cuja solução deve ser vivida antes que possa realmente ser compreendida.
Nas horas de silenciosa meditação o aprendiz percebe que há um espaço de silêncio dentro dele onde pode buscar refugio dos pensamentos e desejos, do tumulto dos sentidos e das desilusões da mente. Ao mergulhar profundamente a consciência em seu coração ele pode alcançar este lugar — primeiro apenas quando está só, em silêncio e na escuridão. Mas quando a necessidade do silêncio cresce o bastante, ele passa a buscá-lo até mesmo no meio da luta com o eu, e o encontra. Porém ele não deve se perder do eu exterior ou do corpo; ele deve aprender a retirar-se para esta cidadela quando a batalha se torna ferrenha, entretanto deve fazer isso sem perder de vista a luta; sem fantasiar que ao fazer isso ele conquistou a vitória. Esta vitória é conquistada somente quando tudo é silêncio, tanto fora como dentro da cidadela interior. Ao lutar, pois, de dentro deste silêncio, o estudante descobre que resolveu o primeiro grande paradoxo.
Contudo, o paradoxo ainda o persegue. Quando ele obtém sucesso pela primeira vez em retirar-se para dentro de si, ele busca este lugar apenas como refúgio da tempestade em seu coração. E à medida que luta para controlar os acessos de paixão e desejo, percebe mais plenamente as poderosas forças que se incumbiu de conquistar. Ele ainda se sente , à parte do silêncio, intimamente afim com as forças da tempestade. Como podem suas insignificantes forças lidarem com estes tiranos da natureza animal?
Esta pergunta é difícil de responder com palavras diretas; se é que, de fato, pode ser dada uma resposta. Não obstante, a analogia pode apontar o caminho onde deve ser buscada a solução.
Quando respiramos, levamos certa quantidade de ar para os pulmões, e com isso podemos imitar, em miniatura, os poderosos ventos dos Céus. Podemos produzir uma débil imagem da natureza: fazer uma tempestade em um copo d’água, soprar um tufão e até afundar um barquinho de papel. E podemos dizer: “Eu faço isso; foi o meu fôlego”. Todavia, não podemos soprar nosso fôlego contra um furação, menos ainda prender o vento alísio em nossos pulmões. Mas os poderes dos Céus estão dentro de nós; a natureza da inteligência que guia as forças do mundo está mesclada com a nossa própria inteligência, e se pudéssemos compreender isto e nos esquecer de nossos eus, os próprios ventos seriam nossos instrumentos.
Assim é na vida. Enquanto o homem se agarrar ao seu eu exterior, sim, até mesmo a qualquer uma das formas que ele assume quando esta “espiral mortal” é posta de lado, ele estará tentando soprar um furação com o fôlego de seus pulmões. Este esforço é inútil e vão; pois os grandes ventos da vida devem, cedo ou tarde, levá-lo de roldão. Contudo, se ele mudar sua atitude em si mesmo, se ele agir na fé de que seu corpo, seus desejos, suas paixões e seu cérebro não são ele, embora ele seja encarregado deles, e seja responsável por eles; se ele tentar lidar com eles como partes da natureza, então pode esperar tornar-se uno com as grandes marés da existência e alcançar, finalmente, o lugar pacífico do seguro autoesquecimento.
“Fausto”

🙏❤️
ResponderExcluirGratidão, sempre <3
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